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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Zzzzz ~



Como esperado, dei uma sumida do blog. Não achei que ficaria sem escrever absolutamente NADA nesse mês, mas acabou acontecendo. E não por bloqueio mental (na real, nem parei para pensar no que criar dessa vez), e sim por falta de tempo.

Faculdade esse semestre ocupa 10h do meu dia basicamente (fora as 3-4h dentro de ônibus/metrô). Saio de casa antes do sol raiar, e volto quando já está escuro. Além disso, quando chego, única vontade que tenho é cair na cama e hibernar. Disso dá para deduzir que quase não sobra tempo (e desejo) de botar a criatividade para funcionar para sair um texto decente. Até deixei a leitura de lado (faz um bom tempo que meu livro está parado na gaveta).

Aí alguns podem me questionar: "Poxa, Vivian, e o fim de semana?". Olha, sinceramente, quando chega sábado e domingo, o que mais quero é não fazer NADA. Não me preocupar com NADA, apenas viver. Sem pressões, sem horários para terminar um trabalho, sem estresse algum. E nem sempre dá, pois geralmente é no fim de semana que coloco algumas coisas em dia, sejam serviços de casa ou coisas da facul (consertar alguma coisa, verificar outra, limpar armário, reparar alguma roupa, organizar a agenda, estudar matérias da semana, fazer trabalhos, blablabla). Para completar, estou mais focada com a carreira, então utilizo o pouco tempo livre durante a semana para ler artigos e livros sobre a área que quero atuar, aprofundando-me mais no assunto.

Bom, vamos ver se em Setembro consigo por alguma ideia no papel. Sinto saudades de escrever, mas está difícil. Só preciso tentar encaixar de tal maneira a não sobrecarregar nada. Última coisa que quero é transformar o ato de escrever numa atividade negativa e estressante. :S

~ VK ~

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Telefonema, alô, bom dia ~



Estava num meio de um sonho doido quando algo no mundo real me tirou da fantasia. Um "algo" estridente. Um "algo" incessante e persistente. Junto do som que me despertara, o barulho de uma vibração sobre a madeira do criado-mudo colaborava para tudo aquilo se tornasse mais irritante. 

Era meu celular tocando.

E não, não era o despertador. Era alguém me ligando.

"Quem me ligaria a essa hora?". Olho para o relógio e vejo: 11h40. É, acho que seria um horário comum para alguém ligar.

O número da tela é desconhecido para mim, e logo prevejo que só perderia meu tempo atendendo. Deslizo o botão verde da tela. "Alô?"

Um breve silêncio. Aquele silêncio que conheço MUITO bem e faz eu lembrar que não deveria ter atendido mesmo. Antes que desse tempo de eu desligar, surge um voz do outro lado da linha:

- Boa tarde, poderia falar com a senhora Vivian?

Isso. Meu nome. Dito com todas as letras. Nem mesmo "o proprietário da linha", como antigamente. Mas também não seria com efeito: na era do celular, é difícil mentir que eu não seja a responsável, como ocorre com os números residenciais.

Bom, sei que tentar arranjar uma desculpa logo agora seria perda de tempo. Geralmente, essas atendentes, assim que você confirma ser a pessoa, começam a falar e não param. Não param MESMO. Um monólogo lido ou decorado dito de maneira automática e artificial sem intervalo para respirar ou ser interrompido (talvez a intenção seja essa mesmo). E minha educação não permite que eu desligue na cara da pobre alma que está sendo forçada a ligar para os clientes oferecendo pacotes e serviços que nunca estou interessada. Só me resta soltar um suspiro e aguardar o blablabla interminável.

- Verificamos aqui que você faz recargas....blablabla...~

Vou caminhando para a sala.

- ...seu número foi sorteado para uma promoção exclusiva...blablabla...~

Bebo meu matinal copo d'água.

- ...você se beneficiará com...blablablablablabla...~

Fico olhando as folhas do chão lá de fora serem empurradas pelo vento.

- ...terá tudo isso por apenas...blablablabla...~

Aquilo é uma pomba?

- ....só precisaria confirmar seus dados...blablablabla...~

Que pomba gorda. 

- ...então já ativaremos...blablablablablablabla...~

Mas é fofa.

- ...e a senhora já poderá usufruir...blablablabla...~

Eu gosto de pombas.

- ...então, poderíamos confirmar?

- Hum? Não. Não quero.

- Mas senhora, com seu plano at-...

- Não quero.

- Você terá vantag-...

- Nops.

- M-...

- Obrigada. Não.

- Okayagradecemossuaatençãotenhaumbomdia. 

*click*

E desliga. 

E fico aliviada por ter acabado. 

Me livrei? Em parte. Sei que amanhã essa ligação e seu monólogo se repetirão. Sempre repetem. As operadoras ADORAM nos telefonar diariamente mesmo ouvindo NÃO todas às vezes. Vai que um dia nos vence pelo cansaço? Acho que nesse caso não se aplica...tem meu dinheiro envolvido nisso aí. E nem adianta pedir para removerem seu nome do sistema porque, por mais que digam que tiraram e não vão mais ligar, sempre ligam. Eta gente que não desgruda. Ou apenas gente desesperada para conseguir dinheiro com planos mais caros. E gente querendo te dar "bom dia".

Por eles, todo dia meu número é sorteado para alguma promoção. Queria ter essa sorte na loteria, mas por ora, só nessa operadora mesmo. Quem sabe uma hora minha sorte mude, e eu atenda um telefonema com um pouco mais de animação para ganhar um prêmio de verdade.

Enfim, deixa pra lá.

Bom dia.

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sábado, 23 de julho de 2016

Sobre as férias e coisas mais ~

No início do ano eu havia proposto à mim mesma um desafio literário, que constituía em ler pelo menos quatro livros no primeiro semestre, e quatro no segundo. A ideia era readquirir o hábito de leitura, já que nos últimos dois anos eu não li absolutamente nada, no máximo, um livro por ano, e daqueles bem finos, de nem 90 páginas, seja por preguiça como por problemas na administração do tempo (conciliar faculdade com momentos de lazer). Para minha felicidade, estamos quase na última semana de Julho, e ontem finalizei o décimo livro do ano. Yaay! Consegui ir além do planejado, e isso me deixa plenamente satisfeita com meu "desempenho". 

Como sempre gostei de ler, não demorou muito para voltar a pegar as horas livres para mergulhar em alguma história. Além disso, resolvi superar ~um pouco~ meu enjoo de ler dentro de coisas em movimento e comecei a ler dentro do metrô (no ônibus ainda não rola sem eu passar MUITO mal). Como resultado, esse mês já finalizei três livros, e meu primeiro semestre fechou com mais sete. Está sendo um ano bem produtivo para meu campo de literatura. 

Em relação ao meu outro hobby, que é a escrita, está um pouco mais de lado, e estou ciente disso. Apesar de gostar muito, parei de priorizá-la tanto, de me forçar a escrever para não perder o hábito, estipulando metas e tal. Passei a escrever só quando tenho vontade mesmo. Até porque, como disse, é apenas um hobby. Meu foco principal da vida está na veterinária, não na vida de escritora. Gosto muito e tenho um grande prazer em escrever textos e inventar contos, porém, nessa altura da graduação, minha mente precisa se concentrar em outros assuntos.

O maior prazer que tenho em vida é aprender. Amo aprender coisas novas, mais ainda poder pegar esse conhecimento e aplicar em algo (transformando teoria em prática). Gosto de fazer com que essas informações se transformem em algo útil, e não apenas uma cultura que ficará na cabeça. Por isso, aproveitei as férias para aprender algumas coisas simples, mas que muito me interessam, como pintar com giz de cera, pintar o cabelo e fazer máscaras de hidratação mais eficientes (e ficar cada vez mais independente de salões), entre outros assuntos. A Internet tem sido uma boa aliada. De fato, com ela podemos aprender MUUUITAS coisas, há uma gama de informações (algumas muito duvidosas, mas okay, vamos filtrando) dentro dela, além de ter virado a nova enciclopédia.

Deixando o mundo virtual de lado, aproveitei esse mês também para sair mais de casa por puro prazer de passear. Gosto muito de ficar ao ar livre (e abomino ficar trancada dentro de casa), explorar lugares novos, ou simplesmente me acomodar num gramado em algum parque ou praça. Apesar de estar numa cidade grande, ainda consigo sentir o mundo ao meu redor por onde passo: reparar na coloração e distribuição de nuvens no céu, os diversos cheiros que vem de diversos lugares diferentes, a movimentação do vento, o som das árvores, pássaros e insetos, a combinação de todos esses elementos formando uma paisagem dinâmica, as flores que desabrocham em cada praça, diferentes espécies de plantas que encontro, e por ai vai. São muitos estímulos e elementos vivendo num mesmo espaço para prestar atenção, e poder senti-los já é um hábito natural. Dificilmente saio na rua sem reparar nesses detalhes.

Apesar do início das férias ter sido meio confuso e deprimente (tempo livre demais, fico sem saber o que fazer), no geral, foi bem produtiva! Precisava desses dias livres para pensar e reequilibrar a mente, que tanto me atordoou nesse primeiro semestre. Consegui me recompor e fazer tudo o que eu gosto na medida do possível. Ainda tenho uma semana para aproveitar, e bem provável que vou utilizá-la para me preparar a voltar às aulas e a organizar meus horários com aulas, estudos e lazer. Estou bem animada para a chegada de Agosto. :3

~ VK ~

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Entre balas e doces ~



Em meus 24 anos de existência, percebi que minha paixão por doces foi diminuindo. Bom, nunca fui aquela formiga louca por uma guloseima melada de tanto açúcar! Mas gostava de ir até as vendinhas do bairro gastar minhas moedas em balas e chicletes. Contava cada centavo que tinha pelo meu quarto e trocava por um saco cheio de docinhos variados, que acabavam até o dia seguinte.

Era divertido ficar rodando o baleiro, sempre na esperança de encontrar algum sabor diferente. Mesmo quando não encontrava, não me importava. Estava feliz com o que via ali: bala de maçã verde, morango, coca-cola e aquela salada de fruta na parte das Dimbinhos. Me acabava. Dentre as simples às recheadas das balas, as que mais gosto são aquelas que parecem puras pedrinhas de açúcar. Coloridas, retangulares, ou até circulares com um vazio de coração no centro, estas são as que mais me dão prazer de comer. Se esfarelam a cada mordida, porque não resisto apenas aguardar se desfazer na boca. E sinto cada pedacinho adocicado caindo para um lado diferente da língua.

Ir ao centro da cidade, era quando meus olhos mais brilhavam: aquelas lojas focadas apenas em doces, esperando nas prateleiras coloridas para serem escolhidas, numa infinidade que não sabia nem por onde começar e nem quais escolher. Queria levar tudo. Ali sim eu encontrava várias novidades de chicletes que ardiam na boca, espumavam, manchavam a língua, ou apenas alguns docinhos a mais que eu não conhecia ou não achava pelas ruas de casa ou na cantina do colégio. Parece não haver limites para a criação dessas guloseimas.

Ainda hoje minha alma enche-se de alegria quando entro numa loja dessa, não sabendo o que encontrar em cada corredor do estabelecimento. Até mesmo aqueles baleiros candy machine, que geralmente tem na entrada de mercados, fazem meu coração palpitar discretamente de felicidade. Esses bons momentos nunca morrem dentro da gente. Não importa se são de apenas açúcar ou de gelatina, com sabor de frutas ou de menta, sempre mantenho algumas balas em minha bolsa, para adoçar meu dia-a-dia quando os momentos tornam-se amargos.

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terça-feira, 5 de julho de 2016

Contos de guardanapo ~



Já faz três anos que conheço essa cafeteria, e sempre que posso, dou uma passadinha aqui nos finais de semana para saborear um café da tarde enquanto crio minhas histórias. Gosto desse ambiente aconchegante, luz baixa, com uma decoração vintage e poltronas para se acomodar em vez de apenas cadeiras convencionais. Muitos vêm para cá para trabalhar, sejam adultos ou jovens. "Café" e "Produtividade" combinam, não tem como negar. Porém, ao contrário da maioria, não trago meu notebook para cá, e sim meu bom e velho caderno. Não me sinto segura de sair por aí com uma artefato caro por essas ruas paulistanas, ao menos um caderno e uma Bic (ou lapiseira) são muito menos tentadoras de serem roubadas do que um computador portátil.

Às vezes, venho para esse tipo de lugar não apenas para criar, mas também para prestar atenção às conversas à minha volta. Não, não faço isso porque gosto de cuidar da vida alheia. Na verdade, meu intuito é ouvir diferentes histórias que essas pessoas desconhecidas estão contando aos seus amigos. No meio desses relatos, às vezes tristes, outras divertidas, posso sorrateiramente pescar uma ideia para um novo texto (relaxa, não reproduzo neles a história íntegra, só me inspiro num elemento ou outro mesmo. Sem crises, por favor). Entre um gole ou outro, anoto num guardanapo algumas palavras-chaves. Em uns momentos, reproduzo em desenhos algumas ideias, ficando bem mais claras para mim, e me inspirando mais ainda.

Em casa tenho guardado algumas dessas anotações que faço por aí, não só de cafeterias; de restaurantes e lanchonetes também. Se estou num ônibus ou num metrô, é no bloco de notas do celular mesmo que elas são registradas. Desses pequenos fragmentos rabiscados, germinam contos mirabolantes, que desabrocham botões de singelos sorrisos ou pétalas de surpresa. Nunca se sabe como posso desenvolver uma ideia, que tipo de texto será extraído de cada uma delas. Confesso que nem mesmo eu consigo adivinhar. Muitas, seguem tantas linhas de possibilidades que levam muitos rascunhos e rabiscos até se focarem numa só.

É gostoso transformar pequenas palavras em grandes histórias. Sinto-me desafiada. Transformá-las em algo maior do que na conversa que foram originadas, exigindo o máximo possível de meu potencial de criação. Tudo bem que nem sempre consigo fazer algo elogiável, porém, fico satisfeita em saber que ao menos minha mente foi despertada para trabalhar em algo novo. Reverter relatos felizes para algo dramático, tristes em misteriosos, trágicos em fantasia, poder brincar com essa diversidade de gêneros, mesclando incontáveis elementos, é um passatempo prazeroso. Sabe-se lá quantas histórias podem ser tiradas de apenas um mísero guardanapo de papel.

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domingo, 3 de julho de 2016

Refúgio caótico ~



Às vezes, tudo o que mais quero é me esticar num gramado e sentir o solzinho de inverno tocar minha pele, enquanto um bando de maritacas se exaltam numa árvore próxima. 

Não conheço muitos lugares no meio da cidade para isso, e faz uns anos que passei a ter uma visão negativa dos parques de São Paulo: pedaços de terra “ilhados” em meio à selva ~suja~ de pedra, que tentam passar a falsa impressão de que aqui na metrópole, você ainda pode se manter conectado à natureza. Parece uma forma de tentar compensar a enorme poluição química/visual/auditiva/psicológica que Sampa bombardeia diariamente sobre nós.

Fico sentada num desses parques, cercada  por árvores, gritos de criança, ouvindo as buzinas nervosas do outro lado do portão, sem encontrar a calmaria primária que eu procurava, consciente de que ainda me encontro em meio ao caos, vivendo uma experiência artificial do que eu desejava.

Cidadãos que não parecem enxergar o mundo em que vivem; olham para frente sem enxergar tantos elementos vivos ao seu redor: árvores que cantam junto ao vento, o sol que pinta um imenso crepúsculo todo fim de tarde, flores que desabrocham a cada estação, coloridas borboletas que rodopiam cruzando seu caminho quando caminha até seu trabalho, e até a chuva, que era tão bem recebida em sua infância (ou quando está de férias no interior), passa a ser vista como um castigo quando cai sobre a cidade (exceto em épocas de intensa seca).

As pessoas daqui parecem sentir pavor de se molhar. Parecem ter se afastado tanto da natureza que vira um absurdo querer se reaproximar dela. Senti-la passa a ser “inviável”. Até mesmo parar para observar, ou até tocar, um inseto, é visto com maus olhos pelos outros, como se fosse doentio você admirar essas pequenas criaturas que estavam aqui bem antes da gente surgir, mas que causam repugnância à maior parte da sociedade. Além disso, vejo cada vez mais animais de estimação sendo humanizados, perdendo o direito de ser o que são, tendo desejos humanos impostos como seus.

A cidade grande se apresenta aos meus olhos como um lugar doente, cheio de mentes doentes, que nos oferece diversas comodidades, produtos e serviços em troca de uma vida superficial e fútil, como se levar uma vida sob o intenso estresse e correria do dia-a-dia, fechados em casa ou no escritório, fosse a única forma humana de se realmente viver.

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sábado, 2 de julho de 2016

Férias? Férias! ~

Fazia tempo que não escrevia nada, tanto para cá como para mim mesma. Últimas semanas de junho foram corridas devido às provas finais, mas enfim passaram, e ~acho que~ tenho o mês inteiro para aproveitar agora.

Não sei direito o que farei. Confesso que precisar descansar não preciso, pelo menos não de 30 dias, uns 3 bastam. Não demoro para me recompor de uma bateria de estudos, e nem estou mentalmente cansada porque, convenhamos, mal fui para as aulas esse semestre devido àquele desânimo que me abateu desde Abril.

Costumo me entediar muito fácil quando não tenho o que fazer, por isso, preciso arranjar algumas atividades/objetivos para essas férias (melhor ainda se for ao ar livre. Não gosto de ficar muitos dias consecutivos "enfornada" em casa), ou vou surtar antes mesmo de chegar no quinto dia útil. Além disso, vou aproveitar para procurar novas coisas para fazer/me entreter durante os dias normais também. Estou precisando MUITO de novos estímulos no dia-a-dia, pois minha vida anda muito parada e igual. Essa mesmice me deprime.

Talvez esse mês eu consiga criar contos novos. Saudades de escrevê-los. Afastei-me um pouco da escrita (mas não da leitura, ainda bem), porém, pretendo retornar nesse período de férias. Não estava com muuuuita vontade nessas últimas semanas de criar porque estava focando os pensamentos na minha carreira, muitas dúvidas ainda sobre que caminho seguir dentro da Veterinária.

Enfim, postagem aleatório porque sim. Só fiquei com vontade de digitar. 

As férias mal começaram, mas no fundo, não vejo a hora do segundo semestre começar de vez. 

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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Resenha: "A Morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstói


Deve fazer seis anos desde que li um livro de um russo pela última vez, lembro que ainda estava no cursinho quando peguei “Noites Brancas”, de Dostoiévski. À propósito, um conto excelente. Ainda me recordo da narrativa, da tristeza do personagem, porém, não me identifiquei tanto como nessa novela de Tolstói.

Como o próprio título já diz, esse livro conta a história de Ivan Ilitch antes de sua morte. Talvez, saber apenas isso não é muito atraente para fazer alguém ter vontade de ler. “Uau, fala da vida de um cara aleatório”. Porém, o que surpreende ao decorrer da novela é a sensibilidade colocada em cada linha.

Ivan Ilitch era um juiz super dedicado à carreira, admirado pelos colegas (e invejado por outros), ganhava super bem, vivia entre a alta sociedade, no meio de pessoas de posição elevada, era casado, tinha filhos, etc. Um dia, enquanto arrumava seu novo apartamento, sofre uma queda e se machuca. Entretanto, achando que não foi nada, continua seguindo a vida normalmente. Acontece que dessa batida, um grave problema de saúde surgiu, e é aí que a escrita de Tolstói começa a fazer sua magia.

Ao decorrer dos capítulos, acompanhamos Ivan se aproximar da morte. Ele vai definhando dia após dia, sofrendo não apenas com a dor no rim e no ceco, mas psicologicamente. Ivan é uma dessas pessoas que nunca achou que morreria. Ou melhor, sabia que sim, mas não dessa forma e não tão cedo. É aquele tipo de situação que sabemos que ocorrerá com todo mundo, mas temos a impressão de que só atinge os outros. As dores que a doença lhe proporciona são imensas, mas nada dói mais do que ver o descaso das pessoas ao seu redor.

Ao ficarem sabendo de sua situação, e vendo-o cada vez mais debilitado, seus colegas e “amigos” se preocupam mais em quem ficará com seu cargo no serviço; sua esposa e filha não sentem a mínima compaixão, e ainda o culpam por estar nessa situação e por virar um problema na vida delas; os médicos (todos renomados) são mais indiferentes ainda ao que ele pensa ou sente, observando-o e tratando-o como um mero pedaço de carne apodrecendo. É surpreendente como você capta bem essas indiferenças e falta de empatia, chegando a se incomodar com toda a situação. O único que o faz se sentir humano é um empregado da casa.

A cada página, Ivan reflete sobre sua vida, tenta buscar nas lembranças momentos de felicidade para esquecer a dor, até que percebe que quase não teve momentos realmente felizes. Tudo o que conquistou não foi por puro desejo pessoal. Seu destaque na profissão e sua conduta foram sempre baseadas no que as pessoas de alto nível aprovariam e julgariam como corretas; seu casamento só ocorreu porque a sociedade também apoiava. O jeito que Tolstói escreve faz a gente pensar se estamos felizes com a vida que temos hoje, mas sem parecer com aqueles livros de auto-ajuda. 

Se você soubesse que iria morrer em poucos dias, estaria satisfeito com o que viveu até então? Com o modo que resolveu viver cada dia? Ivan várias vezes chega a achar que a doença o acometeu porque teve uma vida “imprópria”. Repensa várias vezes sobre tudo, e vai criando cada vez mais repulsa pelas pessoas que insistem em fingir (mesmo que descaradamente) que sua situação não é grave, talvez para não se sentirem mal e não amargarem a própria felicidade. Preferem agir e falar como se fosse algo pequeno e passageiro, e não que a vida dele está para acabar. Sério, cheguei a sentir pena de Ivan (e pena era algo que ele até queria que sentisse por ele, pois seria muito melhor do que essa indiferença).

“A Morte de Ivan Ilitch” é uma experiência sensacional. Até o momento, os russos me mostraram que sabem falar de sentimentos. Essa é uma história um tanto pesada (no sentido do efeito que lhe proporciona, não na fluidez do texto), curta (meu livro tem apenas 76 páginas), mas envolvente, que desperta suas emoções e empatia. Tolstói soube fazer com que a angústia de Ivan atravessasse o livro e atingisse o leitor profundamente.

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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Os talentos agraciados pela pobreza ~

Quando se é pobre tem que ser criativo! Taí uma sabedoria que nunca vou esquecer. E principalmente, não deixa de ser esquecida, sobretudo nos momentos da vida em que o dinheiro está curto.

Otimista como uma boa sagitariana, tentei ver o lado bom dessa situação. Estando ciente que é praticamente impossível no momento conseguir alguma fonte de renda a mais, adicionado ao fato de que faz dois anos que quero mudar a cara do meu quarto, e ainda que sou uma doida por cosméticos/maquiagem, tive que buscar uma solução para manter isso tudo sem comprometer o bolso da casa.

Bem, desde criança fui incentivada a realizar trabalhos manuais. Sabe aquele negócio de criar brinquedos e afins utilizando sucata? Reaproveitar tudo o que não usa ou vai pro lixo para transformar em algo útil? Pois bem, com base nisso que tenho pensando em algumas “criações”. Busquei na internet alguns DIY com coisas que temos em casa sobrando.



Nisso, me veio a ideia ~ e paciência ~ de fazer adesivos de parede com Contact, utilizar vidrinhos vazios de esmalte para fazer mini-vasinhos decorativos, porta-bijuterias, porta-recados e aqueles enfeitezinhos que vai areia colorida dentro (decorado com um lacinho por fora ou algo do gênero), customizar algumas caixas vazias para virarem separadores ou porta-trecos, etc.





Juntamente com essas ideias, não podia faltar minhas personalizações de cadernos! Desde o ensino médio gosto de personalizar as capas dos meus cadernos da maneira que eu gosto. Dessa vez, imprimi umas imagens coloridas e encapei. Antigamente fazia colagens de várias imagens, adicionada aquelas estrelinhas e corações tipo lantejoulas, cola glitter e blá.



Origamis também são bem-vindos. Apesar de ter vários marca-páginas que ganho por aí, sempre é mais divertido ter um feito por você mesmo. Com eles também dá para fazer aqueles enfeites de pendurar no espelho (ou aonde achar que deve).







A Internet é um espaço espetacular, dá para achar ideias e tutoriais de praticamente TUDO! Não apenas desses utensílios artesanais de decoração, mas também váários DIY de personalização de roupas (caso queira algo novo no guarda-roupa sem gastar em peças novas, porque convenhamos, as roupas andam MUITO caras), de acessórios, dicas de organização para otimização de espaço(ainda mais agora que os ambientes, principalmente apartamentos, andam cada vez menores), velas e outros enfeites aromáticos, etc. Com um pouco de pesquisa e paciência, é possível aprender várias coisas diferentes e divertidas. Vale a pena dar uma explorada por aí.

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terça-feira, 31 de maio de 2016

Um breve monólogo de fim de mês ~


Semestre está passando mais rápido do que eu esperava! Parece que já vivi TANTA coisa esse ano que é difícil acreditar que foram apenas 5 meses de um ano. Pensando bem, 152 dias são MUITOS dias, e realmente, se muita coisa pode acontecer em uma semana, em 23 nem se fala.

A sensação que tenho é que voltei do interior há pelo menos 1 ano, e não 2 meses. As lembranças de Pirassununga parecem-me tão distantes, difícil aceitar que 60 dias atrás eu ainda estava lá. Devo ter comentado anteriormente que essa estadia no interior sempre foi muuito esperada por mim, desde o dia que fui fazer minha matrícula na USP e descobri que teria que ficar um semestre estudando lá. Seria a primeira vez que ficaria morando em outra cidade para estudar. A ansiedade era alta, não tinha a mínima ideia de como seria, se ia gostar ou não. Pensar em ficar longe de tudo e todos parecia assustador, porém, ao mesmo tempo, ter toda aquela tranquilidade, estar numa fazenda entre mato e animais, num lugar pacato em que não há um psicopata em cada esquina como em Sampa, me agradava bastante. E sim, no final, foi maravilhoso! De início sentia falta da cidade, mas não demorou muito para NÃO querer voltar mais. Muito pelo contrário: mal chegava em Sampa nos finais de semana, via aquela loucura toda e a selva de pedra, e imediatamente sentia vontade de dar meia volta e retornar para o campo.

Pois é, infelizmente o tempo voou, trazendo-me de volta “à realidade”, que é essa minha vidinha em Guarulhos/São Paulo. Curiosamente, passei a gostar mais de onde moro, só Sampa mesmo que continuou a me incomodar. Talvez porque aqui em Guarucity, mesmo já sendo beeem urbanizada e não sendo nem um pouco perfeita, ainda não chega aos pés do fuzuê que é a grande metrópole. Além disso, foi aqui que nasci e cresci, tendo um bocado de boas memórias por essas ruas.

Bom, voltei em Abril, e até hoje tenho a impressão de que não voltei completamente. Pode ser que seja simplesmente porque mudei após essa experiência estudando fora: minha cabeça é outra, minha visão perante as situações e ambientes por aqui são diferentes. Não encontrei uma paz interior ainda. Não que eu odeie tudo desse lugar, longe disso, já me “readaptei” bastante. PORÉÉÉÉÉÉM, quero mais. Assim como lá em Pirassununga, quero encontrar por aqui lugares em que eu possa descansar a mente, relaxar nas horas livres, executar meus hobbies sem preocupações, achar portos-seguros para respirar e diminuir o ritmo. Infelizmente por aqui devo ter mais cautela, por exemplo, não posso sair por aí tirando fotos como lá, despreocupadamente, sem o grande risco de alguém passar e me roubar a câmera. Querendo ou não, não dá para baixar a guarda completamente para apenas me descontrair.

Espero que em Junho eu consiga resolver o que falta desses descontentamentos. Haja diálogos (ou monólogos) internos para conseguir me entender e me redescobrir. Confesso que não estou sabendo direito, com exatidão, que tipo de pessoa sou e quem é Vivian Kida. Saí de Guarulhos em Agosto de 2015 sabendo, e voltei me vendo como uma incógnita. Não sou fã de ficar na ignorância, pior ainda se for à respeito de minha própria pessoa.

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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Resenha: "A Menina Submersa: memórias", de Caitlín R. Kiernan ~



Um livro difícil de se explicar...

A Menina Submersa: memórias foi um livro que me surpreendeu; totalmente diferente de tudo que li até hoje (que não foi pouca coisa). Uma literatura contemporânea que te tira da zona de conforto.

A história é contada por India Morgan Phelps, mais chamada de Imp. De início, ela fala que escreverá uma história de fantasmas, não exatamente no sentido “espiritual” de almas penadas, mas sim de lembranças, imagens e até canções que a perseguem por sua vida; ficam ali, vivas em sua mente não deixando de serem esquecidas. E bom, dentre esses “fantasmas”, há pessoas também, como sua mãe e sua vó, mais especificamente as lembranças e ensinamentos que tivera delas, além de outra em especial: Eva Canning. Esta, foi a que mais me intrigou, e terminei o livro sem saber se era real ou não. Não falarei muito sobre ela para não dar spoiler, apenas digo que Imp, certa noite, encontra Eva (nua e aparentemente molhada) de pé na beira da estrada. O que ocorre depois, não digo, apenas que, depois desse encontro delas, coisas estranhas passam a acontecer na vida (e cabeça) de Imp.

Assim como sugere o título, Imp fala de suas memórias, com aquela impressão de estarmos ali, na frente dela, vendo ela digitar e nos contar. Conta várias coisas de sua vida, suas conversas com a psiquiatra, como sua namorada lidava com suas paranoias, suas supostas “visões”, das sensações que certos quadros lhe davam, enfim, fala de tudo que tenha ligação com esses “fantasmas” que a acompanham (e a acompanharam) durante esse tempo.

O interessante da narrativa é que Imp sofre de esquizofrenia (assim como sua mãe e avó também possuíam), ficando meio confuso inicialmente quem é que está escrevendo a história, pois ela parece falar com ela mesma em alguns trechos. Não sei o que se passa na cabeça de um esquizofrênico, realmente depois dessa eu queria saber. Imp não parece muito certa do que está contando, não sabe se ocorreu ou não, não sabe se está inventando, não consegue diferenciar a fantasia da realidade. E isso se estende até o final do livro. Ficou aquela dúvida para mim: será que aquelas coisas surreais que ela diz ver, realmente existiram? Coisas que pessoas “normais” não conseguem enxergar? Ou é puro delírio? Sempre acho que os loucos são loucos porque vêem coisas além de nossa compreensão (e nós, “normais”, por não entendermos/enxergarmos/controlarmos, preferimos taxá-los de loucos).

A única coisa que me incomodou foram as interrupções que ela faz durante alguns relatos que lhe ocorreram. Simplesmente para no meio porque “não se sente pronta para falar sobre”, continuando algumas páginas depois. 

Com certeza há pessoas que odiaram esse livro. Eu particularmente curti horrores, não só pela experiência de leitura, que foge completamente do que estava acostumada, mas também do modo que tudo ali ficava na minha cabeça mesmo após fechar o livro, me instigando a querer entender a mente de Imp, me perguntando qual o limite da normalidade e da loucura de uma pessoa. A escrita é tão bem feita que você consegue sentir as emoções de Imp, inclusive sua paranoia, principalmente num momento do livro que ela dá uma surtada; você consegue sentir esse desequilíbrio mental como se fosse seu. Ao menos foi esse efeito que Imp passou para mim.

Enfim, A Menina Submersa: memórias será um livro que ficará para sempre em minha biblioteca pessoal. Marcou-me não só pela narrativa, mas ensinou-me uma nova forma de escrever. É um livro cheio de mistérios e segredos logo nas primeiras páginas, que faz você querer entender suas ligações com toda a história. Realmente, não tenho como dizer muito sobre ele sem dar spoiler. Terão que ler para entender.

Pode ser que você não tenha a mesma experiência positiva que eu tive, porém, continuo a dizer que é um livro que vale a pena sim ser lido. Não no intuito de amá-lo, e sim pelas sensações que ele pode provocar dentro de você: a sensação breve de provar da loucura.

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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Blábláblá de um dia frio de Maio ~


Achei que esse dia nunca chegaria, mas enfim o frio chegou, e está ficando mais tempo do que eu esperava (jurava que seriam só uma semana no máximo de felicidade, depois voltar a derreter). Única coisa negativa das baixas temperaturas é conseguir sair da cama às 5h da manhã. Fora isso, está uma maravilha realizar as atividades do cotidiano: andar por aí sem suar, tomar meus chás/cafés sem transpirar, ficar enrolada na coberta enquanto leio/escrevo/vejo TV e vídeos, etc.

O tempo está bem favorável para esses meus hobbies caseiros, meus dedos andam nervosos para escrever loucamente, foda é achar assunto. Tenho alguns em mente mas falta desenvolver um planejamento melhor para transformar essas ideias em texto.



Sinto falta de um pouco mais de mim aqui no blog, não apenas esses últimos posts de resenha, contos e crônicas. Quem me conhece sabe como AMO maquiagens, esmaltes, roupas, sapatos, passear, conhecer lugares novos (principalmente restaurantes), comer, tirar fotos (mesmo nada profissionais), ir ao cinema e exposições, e lógico, animais (este último deve ser o que mais me marca e faz referência à minha pessoa), sabe, coisas além de livros. Entretanto, apesar de estar organizando minhas horas com mais eficiência, ainda falta tempo para me dedicar mais ao meu lazer. Felizmente, realizo pelo menos duas atividades que gosto e me fazem feliz por dia, nem que seja por 15-20min, e que estão sendo suficientes para quebrar a rotina e correria da faculdade. O resultado tem sido positivo: não sofri mais de estresse, não como antigamente pelo menos. O pouco que surge de vez em quando é quase imperceptível, durando muito pouco (gastrite agradece).

Não é novidade para ninguém que estou desempregada por causa da faculdade. Foi extremamente triste ter que pedir as contas quando passei na Fuvest. Gosto muito de trabalhar, faz eu me sentir produtiva e mais útil (como se fizesse mais diferença para alguém/empresa). A área que quero atuar é complicado achar estágio estando em Sampa, e ainda não consegui bolsa pra Iniciação científica, portanto, estou basicamente no ócio. Por causa disso, o blog tem sido minha válvula de escape para a produtividade (não me sinto tão vagal quando crio conteúdo para postar aqui).



Enfim, post aleatório, só para saciar meu desejo de escrever. Estava precisando bater nas teclas um pouco e colocar uns pensamentos para fora.

Vou pensar em outros materiais para trazer para cá.

De volta à rotina agora!

Tchau u3u

~ VK ~

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A Alice "das Maravilhas" ~



Essa é uma dessas histórias que nem eu sei se foi verdade. Ou foi verdade, mas não real. Ou real, com algumas partes de verdade. A outra seria mentira? Ou apenas delírios? Difícil dizer, e na real (essa é real mesmo), não estou a fim de pensar sobre essa questão, depois você se ocupa com isso.

O que vou lhe contar ocorreu no último verão. Pelo calor, acredito que era no verão sim, quase certeza. Perdoem se estou meio confusa, minha mente anda uma bagunça. Já nem sei mais quando estou desperta ou em fantasia. Posso estar aqui, contando-lhe essa narrativa, mas nem por isso lhe garanto que meu espírito está de fato nesse lugar. Não sei mais quando estou realmente acordada. 

Morava numa cidadezinha no interior de São Paulo, meio isolada do resto do mundo. Minha casa ficava um pouco afastado do resto da cidade, numa área onde só há pequenos sítios. A maior propriedade por lá é a Fazenda Iaciara, que abriga um enorme rebanho de Nelores. Constantemente passeava pela estrada de terra batida que faz divisa com essa fazenda, cuja poeira vermelha levantava sob meus pés, deixando evidente a falta de chuva nessa época do ano. Gostava de olhar os animais do outro lado da cerca, pastando, calmamente, sem demonstrar preocupação alguma. Próximo à essa fazenda há um penhasco chamado Pico da Embaúba, por causa de uma árvore de Embaúba que está lá há anos. Era de praxe me sentar sob ela para olhar a maravilhosa vista do penhasco. Raramente alguém ia pra lá, principalmente após um acidente que ocorreu anos atrás: há aproximadamente sete anos, uma garotinha que morava na cidade, chamada Alice, caiu do penhasco. Parece que ela não batia bem da cabeça. Seus pais costumavam deixá-la dentro de casa, evitando contato com as outras pessoas, para não assustá-las.

Alice via “coisas”. Coisas além do que o resto do mundo podia ver. Era comum vê-la falando sozinha, mas jurava que tinha alguém ali com ela. E isso assustava os moradores da cidade, principalmente os coleguinhas da escola. Por causa disso, os pais decidiram que era melhor ela ficar em casa. O problema é que ela insistia que tinha sempre um coelho pelo quintal da casa, e todo dia perseguia o pequeno animal. A questão é que apenas ela o enxergava...e sempre a levava para o Pico da Embaúba, onde ele “desaparecia”. Não preciso dizer que um dia ela não voltou para casa. Encontraram seu corpo três dias depois caído do penhasco. Por causa disso, seus pais fixaram um crucifixo perto da árvore de Embaúba. Confesso que nunca tinha visto essa guria na vida, mas “a conheci” ano passado.

Isso foi numa quarta-feira. Estava um calor dos infernos, para variar. Como de costume, caminhava pelas fronteiras da Fazenda Iaciara observando os bois me observarem (?). Essa foi a primeira vez que eu tinha visto aquela vaca bizarra, me encarando com um olhar vazio. Sem dúvida me olhava, mas eu não sabia dizer se no fundo realmente olhava para mim (deu pra entender?). Fiquei um tempo encarando-a de volta. Sim, eu sei, deveria parecer uma retardada. Não deu dois minutos e algo no meio da mombaça me chamou a atenção. Uma garotinha estava agachada, concentrada em alguma coisa à sua frente. Não sei que diabos faria uma criança no meio do pasto com bichos de mais de 450kg andando por lá. Passei por entre as cercas (sim, não devia, mas fiz) e caminhei até a garotinha, pousando a mão em seu ombro.

- Está perdida?

Ela se virou assustada, quase desequilibrando-se da posição que se encontrava. No momento seguinte, já me reprendia:

- Shhhhhh! Não tá vendo que pode assustá-lo?

- Quem? Os bois?

- Não! O coelho. Ali ó!, e apontou para frente.

Fiquei uns minutos observando, mas só via mato e cigarrinhas saltitando.

- Não vejo coelho algum...

- Claro que não, ele está escondido.

- Humm sei. Olha, é perigoso ficar por aqui. As vacas estão com bezerros, podem achar que você é uma ameaça e atacá-la.

- Elas nunca me machucariam.

- Ah é? E por que não?

- Porque não.

Não tinha saco algum para discutir com crianças. A lógica delas não é tão...lógica.

- Tsc, você que sabe...mas seus pais não ficariam felizes se você se machucasse.

- Tá tudo bem.

- Tem cert...

- OLHA! ALI!

Antes que eu terminasse de falar, a pequena garota saiu em disparada pela mombaça alta. Por algum motivo, corri atrás dela. A bichinha era rápida, foi difícil acompanhar. Após uns dez minutos de “perseguição”, ela sumiu. Procurei em volta, mas tudo parecia calmo, como se nada daquilo tivesse acontecido. Caminhei mais para frente, saindo do terreno, procurando ainda pela criança. Reparei, porém, que perto de mim, entre a mombaça, estava aquela vaca esquisita. Mas não me encarava, como antes. Estava olhando para o lado esquerdo, da mesma maneira bizarra. Foi aí que me dei conta que a Fazenda fazia divisa bem próximo ao Pico da Embaúba. E era para a Embaúba que a vaca olhava. Caminhei até a árvore, e notei que alguém estava sentada sob suas raízes. Era a garotinha.

- Ah, aí está você. Como você corre, menina!

- Não se pega um coelho caminhando...

- Aham, sei. E pegou seu coelho?

- Não, ele fugiu. Sempre foge.

- Ele é seu?

- Não, mas sinto que me chama.

- Como assim?

- Não sei, só me chama.

- Você fala umas coisas esquisitas...

Enquanto conversava, notei como a garota era branquinha, o que era bem incomum, já que quase todos da cidade eram no mínimo bronzeados por causa do sol que nos torrava diariamente. Assim como eu, ela estava com uma blusa de alcinha, mas, ao contrário de mim, a mombaça não fez um único arranhão em sua pele exposta.

- Aliás, mocinha, qual o seu nome?

- Alice.

- Alice?

- Sim, como a “das Maravilhas”.

- E você persegue um coelho por causa da Alice “das Maravilhas”?

- Não. Porque ele me chama, já disse. Mas me tornarei “a das Maravilhas” quando o pegar.

- Ainda não entendo...

- Não precisa entender...hã..como se chama?

- Paloma.

- Ah, como a “das pombas”.

- É...deve ser.

- A vaca é sua?

- Que vaca?

- Aquela ali, parada no meio do pasto.

Olho para trás, e vejo aquela vaca bizarra me olhando.

- Não. É dessa fazenda aí.

- Não é não.

- Como sabe?

- Ela me disse.

- Você fala com a vaca?

- Ela que fala comigo.

- E ela não disse que não é minha?

- Ela não me fala o que não importa.

Não sei, mas aquela garotinha começou a me irritar.

Alice então, ficou em silêncio. Encarava o penhasco sem piscar. Só agora vejo que estava sentada ao lado do crucifixo. Nessa hora, um pequeno calafrio percorreu minha espinha, mas antes que eu abrisse a boca, ela começou:

- Já estive aqui antes. Mas não lembro quando.

- Você mora por aqui?

- Devo morar.

- Há quanto tempo?

- Não sei.

- Não sabe?

- Não.

- Você sabe de alguma coisa?

- Só que eu preciso do coelho.

- Posso te ajudar a pegá-lo se quiser.

- Não sei se conseguiria...

- E por que não?

- Você não corre.

E soltou uma risadinha sarcástica. Por algum motivo, não consegui ficar brava com ela, e sim, acabei rindo de volta. Nessa hora, ela sorriu, e que sorriso bonito! Se ela era a Alice que todos falavam, que maldade foi esconder esse rosto “das Maravilhas” do resto da sociedade. Ela não me parecia louca. Ou talvez porque eu esteja um pouco louca. Não sei. Só sei que ninguém da cidade acreditou quando eu comentei que vi essa pequena correndo pelo pasto, pelo contrário, me olharam assustados. Com o tempo, alguns pararam de falar comigo; outros, me olhavam torto. Acho que eu fui taxada como a nova louca da cidade.

xxx

Na quinta-feira, o dia amanheceu gelado. Agasalhei-me como pude, afinal, ia sair para minha caminhada diária. Por mais que procurasse, não sabia aonde estava minha touca amarela. “Que merda...” Havia ganhado essa touca de meu pai um mês antes dele falecer. Gostava muito dela, porém, como raramente fazia frio nessa cidade, raramente conseguia usar. Agora, quando esfriou, não a acho. Só pode ser carma...

Revirei a casa quinze vezes mas nada. Tive que colocar outra mesmo.

Saí pra caminhar antes do meio dia, mas não encontrei a menina dessa vez. Coincidentemente, a vaca bizarra também não estava ali. De alguma forma, isso me entristeceu. Teria sido uma ilusão mesmo? Sei lá, andava meio desanimada esses dias. A insônia me assombrava toda noite. Talvez dormir tão pouco esteja afetando minha cabeça.

Voltei frustrada para casa. Estava com o dia livre, sem serviço para fazer, por isso queria tanto encontrar aquela garotinha, ao menos para “passar o tempo”. Ah, nem falei: trabalhava para uma revista da cidade vizinha. Fui abençoada por arranjar um serviço que podia ser feito em casa, já que eu não gostava de ficar trancafiada num escritório. Eu escrevia umas crônicas, e podia mandar tudo para o e-mail da empresa. Era ótimo.

Como o dia estava friozinho, preparei um chocolate quente e resolvi assistir TV. Zapeei canal por canal, atrás de algo decente, mas nada me chamava tanta atenção. Devo ter feito isso por muito tempo, pois meu chocolate até acabara. Desliguei a TV, e acabei pegando um livro e uma coberta (estava frio pra burro!). Fazia tempo que não lia nada, aproveitaria aquela tarde para isso.

Enquanto lia, sentia a coberta ficar cada vez mais quentinha. Não sei se é só comigo, mas quando isso ocorre, ainda mais num dia frio, sinto o sono me envolvendo pouco a pouco. Meus olhos começaram a se fechar, e eu brigava comigo mesmo para manter-me acordada (que irônico! Passo a semana em insônia, e quando meu corpo decide dormir, me nego. Devo ter problema mesmo). Estava quase adormecendo, quando um barulho do lado de fora me desperta. Olho pela janela, e vejo a vaca bizarra me encarando do quintal. E o pior que não apenas me encarava: estava usando minha touca amarela. Sim, aquela que havia sumido.

“Mas que diabos...? Aquela vaca....e com minha touca.”

Estava para levantar do sofá, quando meu livro caiu no chão, e o barulho fez eu acordar.

“Um sonho?”

Parecia real demais para ser. Olhei para a janela, e não havia mais vaca alguma. Esfreguei meus olhos, certificando-me que estava desperta, e caminhei até o quintal. Não era possível, tinha certeza que não estava dormindo. Inspecionei o lado inteiro de fora de casa, mas nem sinal de vaca. Nem de ninguém.

“Tsc...que seja.”

Retorno para dentro, disposta a ler mais um pouco. Mas antes, precisava lavar o rosto, queria ter certeza que não dormiria de novo...se é que dormi mesmo. Para minha surpresa, ao passar pela porta do quarto, deparei com minha touca amarela em cima de minha cama. Estaria dormindo de novo? Não sei se realmente a vi, mas tenho quase certeza que sim. Aliás, tenho certeza de quase nada desde que encontrei com Alice. Creio que esteja apenas delirando. Como disse, minha cabeça anda cansada. 

Resolvi não pensar muito naquilo o restante do dia. Quando a noite caiu, parte do sono havia passado. Demorei horrores para conseguir dormir. E tenho a impressão de que, nesse meio tempo da madrugada, quando tentava adormecer, ouvi claramente uma vaca mugir próximo dali.

xxx

Sonhei que caminhava pela mombaça. Era noite, e estava frio. Bem frio. Apesar disso, encontrava-me despida. Devia ser sonho mesmo. Andava sem rumo pelo pasto, que parecia bem mais alto do que de costume. O silêncio era absoluto, nem os grilos podia-se ouvir. Só queria sair dali e me vestir, estava congelando. Após um período andando no breu, deparo-me com a Embaúba. Estava seca, sem folhas, sem vida alguma. O crucifixo estava caído em suas raízes, como se alguém tivesse o arrancado da terra e jogado para o lado. 

Pouco conseguia enxergar ao meu redor. Nem lua nem estrelas havia no céu. Tudo estava quieto, e aquilo começou a me assustar. O frio começou a aumentar, e a mombaça parecia se adensar cada vez mais, impedindo a passagem através dela. Viro para a direita, à fim de pegar o outro caminho para sair dali. Porém, dou nem dois passos e sinto o chão sumir sob meus pés. Desde quando cheguei tão perto do penhasco? Virei-me para tentar voltar, mas em vão. Entretanto, pude ver de relance a figura da vaca me encarando. E ela estava com minha touca. 

Gritei, mas minha voz não saía. Antes de despencar ao solo, abri os olhos, acordando assustada. Estava no quarto, ofegante, as cobertas todas caídas no chão. Isso explica o frio que sentia. Respirei fundo até me recompor, bebendo um pouco da água que sempre deixo no criado-mudo ao meu lado. Fazia tempo que não sonhava, já que nem dormir dormia. Se fosse para ter sonhos assim, era melhor nem ter. 

Assim que me acalmei, recolhi as cobertas do chão e me acomodei na cama novamente, extremamente sonolenta, e voltei a dormir. Enquanto meus olhos se fechavam para mergulhar no sono, tenho a impressão de ter visto Alice em meu quarto. E quase certeza de que a vaca estava ao seu lado. 

Adormeci.

xxx

Durante aquela semana, o sonho se repetia. Sempre que estava para apagar, via seu vulto perto de minha cama. Várias vezes abria os olhos para verificar, mas não encontrava nada. Poderia já fazer parte do sonho mesmo. Vai saber.

Passava os dias obcecada em encontrar a vaca ou a garotinha. Poderia até mesmo ser o bendito coelho dela, coelho que ela afirmou que eu não pegaria pois não sabia correr (o que não era mentira). As pessoas da cidade evitavam falar comigo, crentes que eu havia perdido o juízo. Só sabia falar da Alice (e da vaca). Ninguém me respondia. Só me olhavam assustados e saíam de perto. O dono da fazenda me proibiu de entrar em suas terras quando me pegou andando pelo pasto gritando pela menina. Ameaçou com sua espingarda em minha testa caso me encontrasse por ali de novo. Confesso que isso não me fez parar; só que agora, vagava pelo pasto sorrateiramente pela noite, quando o proprietário estava dormindo.

Duas semanas se passaram desde que comecei a essa busca noturna. Era quarta. Quem sabe, como naquela última, eu encontraria a menina de novo. A noite estava fria, como meu sonho, e sentia que hoje encontraria Alice. 

Caminhava pelo pasto discretamente, não querendo chamar atenção nem dos bois. A lua iluminava meu caminho, ao contrário do que ocorria nos meus sonhos. Observava atentamente ao meu redor, em busca de um mínimo movimento sobre a pastagem. Já havia caminhado por uma hora, quando ouço um barulho ao meu lado. Agachei, ficando imóvel, com medo de que seja o dono da fazenda atrás de mim. Os passos se aproximavam, e meu coração começava a acelerar gradualmente. Para o meu alívio, do meio da mombaça não surge o dono da fazenda, e sim a vaca bizarra. Ela me encara, com aqueles olhos vagos de costume. Pela primeira vez, dirigi a palavra à ela.

- Estava te procurando.

Mal terminei de falar, e um pequeno animal branco passa correndo ao meu lado.

“O COELHO!”

Corro atrás deles o mais rápido que pude. Não o enxergava no meio da noite, mas ouvia claramente suas passadas pelo pasto. Como da primeira vez, ele sumiu. E como da primeira vez, vejo-me na divisa da fazenda com o Pico da Embaúba. Atravessei a cerca, na esperança de encontrar Alice sob a árvore de novo. Porém, ela não está ali. Procurei-a pela região, mas não havia sinal algum dela. 

Nem do coelho. 

Nem da vaca. 

Estaria sonhando acordada de novo? Estou realmente aqui no Pico? Pela primeira vez, comecei a cogitar se estava ficando louca mesmo. Estava frustrada, confusa. Involuntariamente algumas lágrimas escorreram pelo meu rosto. Sentei-me próxima ao penhasco, olhando para a frente, sem realmente olhar para algo. Tudo o que mais queria era esquecer essa história toda. Largar essa paranoia e voltar à minha vida normal (se é que já tive um dia).

Como no sonho, o frio só aumentava. Reparei, então, que a lua sumiu por trás das nuvens, e só avistava uma ou duas estrelas. Sequei minhas lágrimas com as costas da mão enquanto me levantava, permanecendo em pé. Escuto um mugido atrás de mim e, ao virar, encontro a vaca bizarra parada perto da árvore, olhando para o crucifixo. Volto meu olhar para ele e, para minha surpresa, encontrava-se caído sob as raízes. Antes mesmo de pensar alguma coisa, um coelho surge correndo da direção do crucifixo diretamente para mim. Mais uma vez (ou pela primeira vez), desequilibro-me e sinto o solo desaparecer sob meus pés. 

E mais uma vez (se é que já teve alguma), vejo a vaca me encarando com seus olhos vazios.

Dessa vez, não consegui acordar, e meu grito não saiu mudo. Avisto o solo se aproximar, segundos antes de chocar-me contra ele. Não lembro de ouvir mugido, e sim o estalo de meus ossos se quebrando. No lugar da voz, minha boca se preencheu com um gosto férrico de sangue fresco. Não demorou muito para minha visão começar a se turvar, e o som do ambiente ao meu redor ir desaparecendo. Talvez tenha perdido a consciência assim que caí, e tudo isso tenha sido uma fantasia. Porém, tenho certeza de que, antes de minha visão e pensamentos se apagarem por completo, vi Alice de pé ao meu lado (e a vaca bizarra parada atrás). Como naquele dia, ela me olhava, sorrindo, aquele “sorriso das Maravilhas”. Lembro que aquilo me confortou.

Ela sorria, feliz. E dessa vez, com o coelho branco em suas mãos. 

Ao menos consegui pegar o maldito coelho para ela.

~ VK ~